Em dezembro de 2017 tive contato com a publicação “Introdução à Análise de Redes Sociais Online”, escrito pela pesquisadora Raquel Recuero e disponibilizado gratuitamente pela EDUFBA (http://www.lab404.ufba.br/?p=3223).

Trata-se de iniciativa bem interessante e necessária. Como sabemos, o tópico da Análise de Redes Sociais (ARS) ainda é muito pouco explorado no país; em especial na Comunicação. Há muito o que fazer e estudar. Muita coisa por descobrir e explorar.

É justamente nesse sentido que se faz a recomendação da leitura. Tendo em vista que o objetivo da autora é apresentar o tema e métodos possíveis de investigação, creio ser interessante para se familiarizar com o tema. Nas palavras da autora:

“O que é relevante aqui é perceber que a ARS existe dentro do arcabouço de métodos possíveis para que pesquisadores das áreas que tradicionalmente não trabalham de modo tão empírico e com tantos dados (como é o caso da Comunicação) possam se munir de modos de análise e compreender elementos mais amplos em seus dados. Nosso objetivo, portanto, é ampliar a compreensão desses modos e permitir que a ARS seja mais popularizada entre os pesquisadores, de modo especial, entre aqueles que trabalham com dados provenientes do ciberespaço.”

O livro tem leitura bastante fácil e é bem direto ao assunto, apresentando a origem das informações e indicando caminhos.

Tenho apenas duas ressalvas com relação ao texto. Tecnicalidades que não atrapalham o objetivo da autora e muito menos o entendimento do assunto.

A primeira delas é com relação ao conceito de buraco ou lacuna estrutural (structural hole). Embora Recuero (2017) cite bem acertadamente Burt para fundamentar o conceito, creio que vale observar que este mesmo autor apresenta o conceito de lacuna estrutural (Burt, 1995) como sendo a posição de um ator que é a única ligação entre diferentes grupos. Nesse sentido, se este ator se ausenta, há a criação da lacuna (ou buraco). Tratei deste assunto na ocasião em que procedi com o mapeamento da rede de pesquisadores em Administração no país (Oliveira, 2013). Na ocasião apresentei o conceito a partir de Burt (1995) com a ligação a Coleman (1988) da seguinte forma:

“Ao compreender o capital social como um recurso da rede buscado pelos atores e, portanto, motivador de suas ações, deve-se entender também que a posição ocupada na rede lhes proporciona capital social. Assim sendo, é possível enxergar que determinado ator que está posicionado na estrutura como a única ligação entre dois grupos que compartilham interesses ocupa um espaço conceitual de destaque, pois é ele quem controla o acesso a recursos por parte dos dois grupos. A esse ator atribui-se o título de lacuna estrutural (Burt, 1995).

Ocupar uma posição de lacuna estrutural na estrutura da rede não é o único ganho ou recurso proporcionado a determinado ator. Reputação, controle de informação, confiança e cooperação são também recursos ou ganhos que se pode obter a partir de suas relações e posicionamentos na rede (Coleman, 1988).”

A segunda questão é ainda mais sutil e refere-se a questão das redes de dois modos. Como meu trabalho de mapeamento da rede de pesquisadores em Administração no Brasil tratou disso, entendo que as redes de dois modos são um pouco diferentes daquilo que é apresentado no livro. Recomendo a leitura desta postagem do Tore Opsahl (https://toreopsahl.com/tnet/two-mode-networks/defining-two-mode-networks/) para mais detalhes sobre as redes de dois modos (o autor, inclusive, exemplifica as redes de colaboração científica como redes de dois modos, como fiz. Tanto ele quanto eu usamos Newman (2001), Wasserman e Faust (1994), dentre outros, para embasamento.

Como disse, estas diferenças no modo de enxergar o que é uma lacuna estrutural e uma rede de dois modos não atrapalham e nem desabonam o texto. A leitura do livro é bastante recomendada. Fica aí uma dica bem interessante para quem quer, rápida e objetivamente, se introduzir ao tema da Análise de Redes Sociais.

Referências:

Burt, R. (1995). Structural holes: The social structure of competition. Harvard University Press.

Coleman, J. (1988). Social capital in the creation of human capital. American Journal of Sociology, 94

Newman, M. E. J. (2001). Scientific collaboration networks. II. Shortest paths, weighted networks, and centrality. Physical Review E 64, 016132.

Oliveira, C. C. (2013). Coopetição em redes interpessoais: relacionamentos coopetitivos na rede de pesquisadores brasileiros em Administração. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil.

Recuero, R. (2017). Introdução à análise de redes sociais online. EDUFBA, Salvador, BA, Brasil.

Wasserman, S., Faust, K. (1994). Social Network Analysis: Methods and Applications. Cambridge University Press, New York, NY.