Sobre a maionese do Sakamoto

Ontem li este texto do Sakamoto.

A maionese desandou faz tempo. E não foi por causa de manifestações como a que ocorreu no casamento da deputada.

Pra começar, o Leonardo Sakamoto comparou bananas com laranjas. Uma coisa é voce agredir ou atacar verbalmente (presencialmente ou por meio da internet) quem quer que seja motivado apenas por uma discordância; uma opinião diferente. Isso é ruim e muito negativo para a convivência em sociedade. Não há nada que justifique alguém ser atacado porque pensa diferente de outra pessoa.

Outra coisa, completamente diferente, é a manifestação popular de desaprovação (que pode sim ser acompanhada de ovos e tomates podres) com relação àqueles que deveriam nos representar e não o fazem. Àqueles que acreditam que, por estarem ocupando cargos públicos, estão acima da lei. Àqueles que – com a certeza da impunidade – fazem e desfazem dos cidadãos.

Estes, os cidadãos, não tem qualquer outro meio de se expressar ou de iniciar um debate pois lhes é privado o acesso a estes representantes. Os eleitos só querem conversar com a população quando necessitam de seu voto. Nesse sentido usam das prerrogativas de seu poder financeiro (e também do poder financeiro daqueles que os financiam – a elite que tem interesses reais a serem defendidos por estes representantes) pra “conversar” com a população e convencer que merecem mais um mandato.

Quando esta população que não consegue se fazer ouvida toma consciência de seu poder de manifestação, o faz da maneira que entende melhor. Da maneira que consegue ser ouvida. Da maneira que entende que sua mensagem chegará a quem precisa ouvir.

Se isso se dá por meio de ovos e tomates podres e gritaria na porta da suntuosa e insultante celebração de casamento da filha de um homem que faz parte da equipe de abutres que aplicaram um golpe parlamentar no país, que seja.

É inocente demais achar que a população que está sofrendo sem emprego, vendo seus direitos sendo tomados um a um enquanto dividas de empresas são perdoadas e empresários saem livres de qualquer punição por terem participado de esquemas de propinas porque fizeram acordos de delação vai ser ouvida de outra forma. É esperar demais que aqueles que desfizeram a constituição retirando do poder uma presidenta eleita pela maioria dos votos sem que houvesse qualquer crime cometido por ela ouçam a população pelos canais legais e pelos procedimentos políticos adequados.

Se, para sermos ouvidos, precisarmos fazer isso, esse será o caminho. O outro já se mostrou inviavel.

A gente (sociedade) foi levado a pensar que nossa representação e nossa voz se fazem valer ou se materializam apenas no momento do voto. Não é bem assim. A questão do poder econômico usado para convencer os eleitores naquela ocasião (eleição) mostra que mesmo se nós, cidadãos, tivéssemos voz apenas naquele momento, o abuso do poder econômico obliteraria qualquer procedimento democrático por si só ali, naqueles meses e na urna.

Outra ilusão que temos é a de que as mídias e plataformas sociais dão voz para os anseios populares e que, por ali, este anseios se materializam. Em parte isso é correto e procede. Temos onde nos manifestarmos. Mas daí a nossa voz ser ouvida e estes anseios se materializarem há um espaço quase infinito.

Não que as plataformas sociais não valham nada. A gente sabe muito bem o valor que elas tem. Estou usando uma agora e a gente vê que por meio destes canais muita coisa acontece. Mas os impactos e impactados somos sempre nós, indivíduos. Não há ou não se percebe impacto direto de nossas ações em plataformas sociais nos procedimentos e instituições aos poucos quais nossas ações se dirigem. É um tanto quanto inocente achar que mudanças efetivas ocorrem em função das plataformas sociais.

Uma leitura criteriosa de Castells (2013) nos mostra que estas ferramentas sociais são muito positivas como complementos a ações físicas. As plataformas sociais funcionam como catalisadores de nossas vozes. Mas, se nada for feito fisicamente e de forma a materializar o que é dito ali em ações que o resto da população possa ver e sentir, nada ou muito pouca coisa muda.
Por isso que uma manifestação de classe tem um grande impacto quando – por exemplo – impede a circulação e o trânsito numa avenida importante. Se as pessoas que sofrem na pele com baixos salários e poucas condições de trabalho não se manifestarem fisicamente e impedirem o trânsito ao fecharem uma avenida, aqueles que por ali passam não saberiam sequer dos problemas enfrentados por aquela classe de trabalhadores.

Assim sendo, é importante que as pessoas vejam e sintam aquilo que incomoda parte da população para terem noção de que aqueles problemas existem. Nesse sentido, a manifestação no casamento da deputada é válida sim. É por meio deste tipo de ação popular que aqueles que detém o poder de nos representar percebem que não estão atendendo nossos anseios. O fato de haver aquela manifestação mostra aos que gozam de dinheiro e poder que aqueles que eles representam – ou deveriam representar – (a sociedade) não estão satisfeitos com suas ações que, na verdade apenas atendem os anseios de uma elite que os financia.

Outra leitura recomendado para este contexto é Souza (2009). Nele vemos que há forças que atuam constantemente para que seja mantido este status de desigualdade e marginalização da maior parte de nossa população. E a eles (os marginalizados) não basta ter acesso a ferramentas de tecnologia e comunicação. A sua caracterização como pessoas de menor valor já está tão presente em nossa cultura que fica difícil (para não dizer impossível) reverter isso pacificamente.

Coisa semelhante ocorre com a postura da maioria oprimida e não representada quando – em manifestações de rua – hostilizam representantes da mídia hegemônica. Tal qual aconteceu com Caco Barcellos. Lembra? Em certa ocasião Caco Barcellos foi agredido em manifestação.
O pessoal expulsou o jornalista aos gritos de “o povo não é bobo! Abaixo a rede globo!” de uma manifestação de servidores nas proximidades da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Não curto agressão, porém entendo perfeitamente o que motivou aqueles servidores a agredirem o repórter. E por mais bacaninha que o Caco Barcellos possa ser, não condeno de forma alguma aqueles que se manifestam com violência e usando veem alguém segurando o microfone da Rede Globo.

Talvez Caco esteja no lugar errado. Será? Não cabe a mim, julga-lo. Mas também não cabe a mim julgar aqueles que durante décadas foram tratados como cidadãos de segunda classe nas infinitas narrativas noticiosas construídas pela Rede Globo. Coloque-se no lugar dessas pessoas que por anos a fio são tratadas como desordeiras, vagabundas e erradas (manifestantes de qualquer sorte) por meio das narrativas noticiosas da Globo. Quando você identifica aquele que lhe maltrata paulatinamente, sua reação não será outra.

Como disse, talvez o Caco Barcellos está no lugar errado. Não na manifestação, mas em seu emprego. Afinal, se você não é golpista, porque trabalha lá? Por outro lado, quem somos nós para dizer onde o cara tem que trabalhar, né?

No entanto, repito: coloque-se no lugar de quem, há mais de quarenta anos, só recebe pedrada, mentira, desinformação e injustiça daquela emissora… Na hora que você explode, está pouco se lixando se é o Caco Barcellos ou o Papa segurando aquele microfone. Voce vai mandar às favas mesmo. Ou seja: a questão é complicada.  Não condeno quem agrediu, embora não aprove agressão.

O mesmo vale para o casemento da deputada. Em uma análise fria dos fatos, não acho legal sacanear com um casamento. Mas, quando este casamento opulento é uma demonstração de poder de uma classe que oprime e não representa, quem sou eu para julgar? E não se trata de um ataque baseado em discordar de posições políticas. A manifestação no casamento da deputada é uma maneira (talvez a única) de uma grande parcela da população que viu seu voto ser jogado o lixo ser ouvida e ter sua existência percebida.

Se formos esperar que pelos procedimentos burocráticos regimentais tidos como legais as vozes das pessoas que estão sendo continuamente prejudicadas pelo golpe parlamentar iniciado em 2016 serem ouvidas, estamos perdidos.

A solução talvez seja esta. O enfrentamento.
Entenda que este enfrentamento não é sinônimo de atacar aqueles que pensam diferente de você. Jogar as duas coisas no mesmo balaio me parece maniqueísmo.

 

Referências:

CASTELLS, Manuel. Redes de indignação e esperança: movimentos sociais na era da internet. Tradução de Carlos A. Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

SOUZA, Jessé. A ralé brasileira: quem é e como vive. Belo Horizonte: UFMG, 2009.

1 comment on “Sobre a maionese do SakamotoAdd yours →

  1. Concordo, em princípio. Receio que a sociedade não tenha um comportamento muito construtivo na sua reação. Que não saiba dosar ou interromper a violência no tempo certo. Afinal, não são as mesmas pessoas que quem linchar “ladrões” e “estupradores”?

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