A falta de experiência na questão da experiência do usuário

Às vezes a gente pensa que, porque já sabemos alguma coisa, os outros também já sabem.
Mas outra coisa que a gente sabe é que não é bem assim.

Isso costuma acontecer comigo muito. O tempo todo preciso me policiar.

Como, desde o ano 2000 trabalho com usabilidade (isso mesmo: de 1995 a 2000 eu trabalhei com desenvolvimento web sem saber que existia algo chamado usabilidade. Trevas, amigo. Trevas), arquitetura de informação e correlatos, é muito fácil achar que, em pleno ano de 2017 estes sejam conceitos introjetados em qualquer processo de produção de um sistema interativo que se preze.

Ainda mais em tempos em que vivemos a emergência (eu diria até com certo exagero) da “experiência do usuário”.

Infelizmente, esta afirmação não poderia ser mais distante da realidade.

Vamos a um caso prático que ilustra perfeitamente a situação.

Meus filhos ganharam uma caixa de bombons Garoto hoje, para a páscoa.
Ao abrir a caixa, vi que havia uma promoção na tampa. A instrução era a de entrar num site, digitar um código e ver se o dono da caixa ganhou R$ 100.000,00.

Tentador, né?

Lá fui eu digitar o código.

A primeira coisa com a qual me deparei foi um problema que, a princípio, pensei ser de compatibilidade de browser. Estava tentando fazer o cadastro em meu browser padrão (Safari). Não conseguia de forma alguma. Mesmo estando idênticos, o formulário acusava que os endereços de e-mail não eram corretos e/ou não conferiam. Fato equivalente ocorreu com os campos de senha. Isso me fez afastar (a princípio) a má fá de quem fez o formulário de impedir os truques bacanas que o Gmail nos permite usar para identificar empresas que vendem nossos cadastros.

Depois de tentar algumas (sério, tentei mais de 5) vezes, abri o famigerado Chrome. Deu o mesmo problema.

Não obstante a questão do conteúdo do formulário não ficar 100% visível para o usuário, o erro persistiu. Tirei o +garoto do endereço e consegui me cadastrar.

O passo seguinte foi validar a conta clicando no link do e-mail enviado. Aí, tudo certo. Como meu navegador padrão é o Safari, o link clicado no cliente de e-mail me levou para este software. Cadastro efetivado. Consegui fazer o login.

Em seguida, o que precisava fazer era cadastrar o código da tampa. Tentei fazer por pelo menos mais cinco vezes no Safari. O CAPTCHA acusou erro em todas as vezes.

Retornei ao Chrome.

Novo login. Novas cinco tentativas.

Nesse momento eu nem lembrava mais a questão do prêmio. Já havia se passado mais de 20 minutos e agora eu só estava preocupado em saber até onde vai a falta de capacidade de construir um sistema que funcione. Em pleno 2017.

Mais algumas tentativas (afinal, como todo usuário, até eu penso que o problema pode ser comigo) depois, o resultado final: Desisti.

Eu achava que isso de sites não funcionarem em algum sistema específico era coisa de meu passado, quando usava Linux + Opera (coitados dos alunos de Ciência da Computação cujos projetos precisavam funcionar corretamente nessa configuração).

Claro que a realidade se mostra bem diferente. E o problema não é só com a Garoto e esta promoção estranha. Recentemente tentei por várias vezes montar um carro em sites de montadoras usando iOS. Te desafio conseguir fazer isso no site da Fiat. Já o site da Renault precisa de Flash para funcionar.

Risos.

Mas, enfim. A questão é que, por mais que achemos que as coisas estejam evoluindo, a realidade (sempre ela) nos presenteia com um belo tapa na cara.

Ainda há muito o que aprender sobre usabilidade, acessibilidade, empatia com o usuário e a tão falada UX. Estes assuntos passaram longe das equipes que estão à frente de projetos web. Em pleno 2017.

Boa sorte a todos nós.

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