Sobre o golpe de 2016

Um pouco de contexto
Replico aqui (porque, afinal, o site é meu), minha participação em uma discussão em uma plataforma social que gostaria de deixar registrada publicamente para a posteridade. Não que isso vá ser apagado do Facebook, mas a dinâmica da plataforma faz com que lá este conteúdo se perca, embora fique registrado pra sempre nos servidores deles. Mas aqui eu tenho mais controle e, bem, aqui você está lendo este texto agora e pra mim é isso que importa.

A discussão
Então, começou com um desabafo de minha angústia ao ver tremenda injustiça acontecendo em meu país. Me deixa genuinamente chateado ver que isso está acontecendo e que tem gente achando normal.

Eu disse:

Se a essa altura do campeonato você ainda não se tocou que rolou um golpe e que está em curso um desmonte de nossa democracia, das duas uma: ou você é muito ignorante ou covarde.

Questionaram a existência de um golpe. E argumentaram a responsabilidade da presidenta e de seu partido no golpe (tipo, culpando a vítima? Eu realmente não entendi esta parte do argumento. As pessoas dizem que a culpa de o Temer estar ocupando ilegitimamente a presidência é do PT e de quem votou no PT para a presidência).

Acontece que são duas coisas diferentes. Uma foi a sequência de erros do PT de ter se associado ao PMDB esperando que isso fosse garantir maioria no congresso e, por consequência, governabilidade. Este foi um erro que custou muito caro. Fez com que muita gente demonstrasse sua insatisfação nas urnas em 2014 (pode me incluir neste grupo; o de pessoas que não votaram no PT no primeiro turno). Enfim. Esta associação com o PMDB não foi benéfica, pois trata-se de um partido sem qualquer orientação moral ou mesmo ideológica.

Mas isso não dá legitimidade ao Temer. Ele compunha a chapa. Quem votou na Dilma, não votou nela por causa do Temer. Arrisco dizer que muitos, como eu, votaram nela no segundo turno de 2014 APESAR do Temer.

Então, associar um com o outro como se fosse algo que passasse macio na garganta de quem votou não é o caminho.

Outra coisa (que valeria por si só, mesmo se o que expus acima fosse completamente equivocado) é a legitimidade do processo de impeachment.

Uma série de jogadas e associações – no mínimo estranhas – entre poder judiciário, legislativo e uma clara campanha difamatória que usou e abusou do poder financeiro e da mídia para desqualificar um governo legítimo (não estamos entrando no mérito aqui da qualidade da gestão Dilma, mas sim falando de sua legitimidade).

A questão do crime de responsabilidade é altamente contestável. Isso não está claro e muito menos plenamente definido. E temos que levar em consideração também os diferentes pesos e medidas usados para atacar Dilma e defender seus opositores.

O fato de se aprontar um verdadeiro escarcéu com relação a Dilma e Lula (quando na tentativa de nomeação do segundo para um ministério) e, logo na primeira ação do governo ilegítimo que assumiu o país vermos 7 ministros investigados na mesma operação que culminou no afastamento da Dilma sendo nomeados é um bom exemplo desses pesos e medidas diferenciados. Além de, claro, sinalizar a manipulação midiática visto que não se indignou com os 7 ministros como se indignou com a indicação de Lula. Seguindo aquela lógica, as pessoas que se indignaram com Lula deveriam estar sete vezes mais indignadas com a ação do Temer. Mas não, o que vemos é o silêncio.

O desmonte da democracia evidenciado (como se um presidente ilegítimo assumir não fosse o suficiente) na remoção do MinC e na sinalização de perda de direitos trabalhistas pra todos os lados (não percamos de vista o que está prestes a acontecer na saúde).

Sem mencionar o fato de que quem conduziu o processo (Eduardo Cunha) na câmara ser réu e ter contra si muito mais provas de atos ilícitos cometidos do que a Dilma.

E também sem mencionar que quem cuidou do processo no senado (Anastasia e Perrella, para citar os dois mineiros) não são pessoas limpas. O primeiro cometeu o mesmo crime de responsabilidade (do qual acusam Dilma) em Minas e o segundo teve um helicóptero de sua propriedade apreendido com 450 kg de pasta-base de cocaína – coisa que passou batida pela PF – evidenciam que houve, no mínimo, um viés que não deveria existir no processo.

Agora, se você não enxerga que isso é um golpe e que um governo sem qualquer representação de minorias, que extinguiu a secretaria que defendia as pessoas com deficiência não representa um retrocesso no Brasil, acho que nem adiantaria eu continuar. Vista sua camisa da CBF e seja feliz pagando um enorme pato.

Aí falaram que não era golpe e que as instituições brasileiras, em especial o judiciário, estão funcionando de maneira lisa e independente.

Respondi argumentando que concordamos em algumas coisas e discordamos em outras. Especialmente na percepção de que o judiciário está trabalhando. Se assim fosse, não seria nem sido iniciado o processo de impeachment porque o então presidente da câmara tem contra si provas irrefutáveis de atos ilícitos e não deveria estar no cargo naquele momento. O judiciário estaria funcionando se fosse aplicada a mesma lógica que impediu Lula de assumir um ministério quando SETE ministros de Temer que são investigados assumem ministérios.

Persistiram no argumento de que eu não deveria continuar questionando a legitimidade do processo; que o governo da Dilma era ruim e que tem que trocar tudo mesmo.

Do lado de cá, devo confessar, curto muito esta discussão. Acho que estes debates são muito importantes para que todos aprendamos mais.

E as argumentações contra o que falei são muito bacanas. Mas levam para uma interpretação de que “se eles (deputados e senadores) foram eleitos, tem carta branca para fazer o que for dentro da lei”.
Há uma série de possíveis ciladas neste raciocínio.

A primeira é achar que o processo foi legítimo. Não foi. O STF não parece estar atento a isso (estou, claro sendo irônico aqui. O esquema dos pesos e medidas diferentes para a nomeação do Lula e dos 7 ministros sujos na lava-jato do governo Temer é uma clara indicação de que o STF tem algum interesse neste esquema).

A segunda delas é achar que era necessário destituir um governo legítimo sem que fosse apurado qualquer crime de fato. Isso é gravíssimo. O que ocorreu com um governo legítimo sem que qualquer coisa que o desabonasse criminalmente fosse provada é assustador. Por isso a comunidade internacional se move falando do ocorrido como golpe. Porque assim o foi.

A terceira cilada é achar que vai melhorar porque, afinal, tiramos (por meio de processos lícitos) um governo (alegadamente) corrupto. Isso está longe de ser verdade. Se a injustiça ocorrida não te toca de qualquer forma, tudo bem. Mas é ingenuidade demais pro meu gosto argumentar que o fim do MinC é algo positivo. Pode escolher o prisma que você quiser para analisar isso e não sairá um resultado bom. A mesma coisa acerca da secretaria nacional de promoção dos direitos das pessoas com deficiência, que foi extinta pelo ILEGÍTIMO governo do Temer.

A quarta é imaginar que é de responsabilidade de quem votou na Dilma o fato de o Temer estar aí. Ele praticamente jogou o projeto de governo de sua chapa no lixo quando assumiu. Na real, já havia se mostrado um crápula quando vazou aquela cartinha na virada de 2015-2016.

Pensar que isso é certo é a mesma coisa de se forçar ficar casada com uma pessoa que te traiu, porque assim havia sido acordado. Não é. Não é mesmo.

As respostas que recebi foram de que estava agindo meio que em clima conspiratório e que a mídia teria independência no país e isso indica que não há um golpe em curso.

Minha resposta sobre a questão da mídia foi a indicação de que uma ley de medios é do que precisamos. Basta acompanhar o ganhador do Pulitzer Glenn Greenwald no Intercept. Acho que vale  para ver como alguém de fora do país enxerga a presença da mídia no cenário político brasileiro.

E, da mesma maneira que expliquei anteriormente, são duas coisas diferentes:

1 – O governo da Dilma não era bom. Mas era legítimo.
2 – O processo não foi liso. De forma alguma. Só não vê quem não quer.

Ou seja. Estamos vivendo um golpe e muita gente tende a cerrar os olhos para isso. Afinal, às 17:00 tem natação. O que é uma pena.

Não entendeu a referência? Assista este vídeo.

Ah, e um adendo Pra finalizar: posar de isento é a pior coisa que você pode fazer neste momento. Se isentar implica em ignorar algo que está mudando os rumos de um país. Se isso não te afeta de alguma forma, putz… Nem sei mais o que dizer.

Mas os argumentos que defendem o ilegítimo governo de Temer despertam minha genuína curiosidade. Perguntei aos meus interlocutores o que os fazia pensar que não rolou um golpe. Questionei se eles não enxergam perdas que nos retrocedem no tempo nestas primeiras ações de um governo que não é legítimo.

Aí falaram que eu sou petista e que meus argumentos são atacar as pessoas contra o PT.

E, aí, a conversa acabou.

1 comment on “Sobre o golpe de 2016Add yours →

  1. Caio, entendo que o PMDB tenha se aproveitado da fraca atuação politica da Dilma junto com os parlamentares, para conseguir articular o impeachment.

    Mas não lhe soa estranho o PT manter relações em alguns estados, apesar dos pesares?

    Sobre a comunidade internacional acusar o golpe no Brasil:
    Essa semana na OEA, a Bolívia levou a pauta a questão do impeachment no Brasil. Apenas EUA, Argentina, Nicarágua, Venezuela e a própria Bolívia se pronunciaram. EUA diz que não vê golpe, Argentina que respeita e confia no Brasil, no que apenas Nicarágua, Venezuela e Bolívia acusaram o golpe.

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