Formação e atuação profissional: Você não é o curso que faz

Em 11 de agosto de 2012 eu publiquei este texto aqui no blog. Ele fala sobre formação e atuação profissional e permanece mais atual do que nunca. Boa leitura.

431248_41501364.jpgEu me graduei em publicidade e propaganda. No entanto, nunca me senti um publicitário daqueles que se encaixam no estereótipo que você deve ter em sua mente.

Nunca trabalhei em agência, nunca fui um “criativo” (embora este fosse meu objetivo quando eu escolhi estudar comunicação, lá no final dos anos 1980). Desde o momento em que eu entrei para a universidade, já na metade dos anos 1990, atuei no limiar entre a comunicação e tecnologia. Na verdade, trabalhei com isso desde antes de começar o curso. Mas achava que seria apenas um “bico” que eu faria até me estabelecer no mercado de comunicação.

Enquanto fazia este “bico”, trabalhei com produção audiovisual (de longe, a coisa que eu mais odiei fazer em minha vida), passei por assessorias de comunicação e departamentos de marketing. Tudo isso enquanto eu ainda estava cursando comunicação.

Tentei, por várias vezes, fazer estágio em agências. Primeiro em agências de publicidade tradicionais. Tentei estágio com direção de arte, arte final e redação. Paulatinamente reprovado nas seleções, fui aprendendo que meu talento não era esse. Aí eu larguei a mão. Depois de trabalhar com marketing e gostar muito daquilo, resolvi dar uma chance ao meu bico (que àquela altura representava mais $$ no meu bolso do que o meu salário/bolsa de estágio). Novamente fui reprovado em seleções de agências web. Lembro-me de uma ocasião em que tentei um estágio na finada TN e, ao receber a resposta de que “eu não era um profissional TN”, desencanei. Insisti outra vez com produção audiovisual (só para me sentir mais infeliz ainda) e acabei voltando para o trabalho com marketing.

Ocasionalmente, o meu “bico” (que nunca deixou de ser algo presente na minha vida) virou meu ganha-pão principal. Finalmente eu estava trabalhando full time com web! Isso aconteceu na virada de 1999 para 2000. Eu havia acabado de me graduar e estava prestes a começar uma pós em comércio eletrônico. Nada mais apropriado, certo? Bem, e assim a coisa se desenrolou até chegar aos dias atuais.

O que passa desapercebido nessa história do início da minha trajetória profissional é que eu não aprendi nada de web na universidade. Muito menos de design centrado no usuário. Como foi então que eu vim a trabalhar com isso? Como foi que eu aprendi HTML, CSS e os meandros dos métodos e técnicas de DCU? Simples: eu li e fui experimentando. Quebrei muito (mas muito mesmo) a cabeça para aprender.

Lembro-me que éramos três os que trabalhavam com web em nossa turma na UFMG. Eu, Herbert Rafael (um dos donos da 3bits e – sem sombra de dúvidas – o melhor diretor de arte que eu conheci) e Carmem Borges (que hoje também é professora na PUC Minas). Houve outra ocasião marcante que o Herbert fez um mapa de imagens na munheca. Celebramos isso. Ver a coisa no ar era um prêmio para nosso esforço (eu e ele tínhamos um fanzine sobre música e fizemos uma edição eletrônica). Foi uma farra! E reforço: ninguém nos ensinou nadica de nada sobre web na universidade. A Carmem certa vez trouxe um xerox de um livro que ela havia arranjado sobre JavaScript e a gente quebrava a cabeça com aquilo. Sozinhos. Não havia sequer um professor com conhecimento específico algum para compartilhar com a gente. Uma vez, eu e a Carmem fizemos em dupla um trabalho versando sobre a internet. A professora nos disse que corrigiria apenas o texto e que a internet era coisa fantasiosa que a gente só via no Fantástico (sério, estas foram as palavras da professora).

O que quero dizer quando falo isso é: você não é o curso que você faz. Teve gente que se graduou comigo e que hoje faz outra coisa da vida; totalmente diferente de comunicação e ainda mais distante de web. Teve gente que não foi reprovada nenhuma vez (passava sempre com notas altas, diga-se) e, no entanto, é profissional de terceira categoria. Mesmo tendo estudado na tal UFMG.  Novamente, você não é o curso que você faz. Eu fiz especialização em comércio eletrônico, mas o que me fez especialista de verdade foi trabalhar com sites de comércio eletrônico por uns bons anos da minha vida.

O que me fez especialista em marketing digital foi viver isso por outros tantos anos. Ou você acha que em 1997 algum professor de marketing que dava aulas na comunicação sabia o que era internet?

O que me fez professor de usabilidade foi o meu interesse pelo assunto e – de novo – quebrar muito a cabeça e ler incessantemente sobre a coisa desde a primeira vez que tive contato com o termo, em 1999. Foi a prática!

Então, me deixa muito chateado (pode brincar… #xatiado) ver na galera que estuda comunicação hoje em dia (na verdade esta galera sempre existiu, mas antes eu era colega deles. Hoje sou professor deles) esperar que a coisa vai ser toda ensinada completinha em pacotes  hermeticamente fechados pra ele nas disciplinas da universidade. Me deixa bastante frustrado ouvir que o aluno quer aprender Photoshop em sala de aula. Poxa. Pergunta pro Herbert se ele aprendeu a usar o Photoshop em alguma disciplina do curso de graduação que fizemos juntos?

Eu estudei fotografia na graduação. No entanto, minha esposa, que é advogada, tira fotos muito mais bacanas do que eu. O motivo? Ela gosta de tirar fotos. Ela se preocupa com luz, sombra e cores (sem ter feito uma aula sequer disso). Ela lê o manual da câmera. Ela busca informação na internet. Eu uso o autofoco e pronto. Estou satisfeito.

A galera que hoje tem 18-23 anos (em sua maioria) espera que o curso que escolheram para fazer dê a eles todas as respostas e todo o ferramental necessário para sua atuação profissional. Pra completar, esperam que os empresários ofereçam salários altos e contratem as pessoas apenas baseando-se em documentos do word que declaram que eles estão fazendo o curso X ou Y.

A coisa não é bem assim. Se a gente tiver sorte, muita sorte mesmo, o curso que a gente faz (estou falando aqui especialmente de comunicação e correlatos, ok?) vai dar pra gente apenas 10% do que a gente precisa. O resto é a gente que faz. Com muito esforço! Sabe o que vai fazer de você um bom programador front-end? Trabalhar com programação front-end! Se você não tiver um estágio ou outra oportunidade de fazer isso por dinheiro, faça porque é o que você quer fazer! E importante: não espere acertar da primeira vez. Espere acertar lá pela quadragésima vez, ok?

Tenha sempre em mente: você é apenas o que você é e o que você é é o resultado do que você faz de si. Assim sendo, faça algo de si. Não esperem que os outros façam isso por você.

3 comments on “Formação e atuação profissional: Você não é o curso que fazAdd yours →

  1. Excelente texto, Caio Cesar! A propósito, você também ensina crianças de 02 a 04 anos? Queria passar esta sensacional mensagem aos meus filhos desde cedo…

    1. Obrigado, Arnaldo! Leciono apenas na educação superior. Mas acredito que os princípios contidos texto podem ser aplicado a outros níveis também. O importante é termos em mente que é necessário correr atrás do que queremos; seja via educação formal ou não.

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